sábado, 21 de outubro de 2023

As plantas de plástico não morrem

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Lá por 2017, quando ainda morávamos no meu tão amado bairro de Colegiales, fomos a uma dessas feirinhas que um grupo de artistas independentes eventualmente organizava em um casarão perto do nosso prédio. Nessa época, ainda éramos jovens e tínhamos força de vontade para buscar entretenimento vespertino, ainda que fosse por apenas alguns minutos, e aproveitávamos para prestigiar a produção dos artistas barra artesãos locais.

Depois de muito bisbilhotar quadrinhos, caderninhos, agendas, ímãs de geladeira, roupas, bijuterias e até confeitaria vegana glúten-free, fiquei completamente hipnotizada por um mini vasinho de planta com formato de cervo (ou veado, se você assim preferir). 

Na época, eu era ainda mais pobre que agora e não tive coragem de gastar meu dinheiro em algo que eu não precisava, mas que ficaria lindo no nosso apartamento ainda em processo de ser mobiliado. Mas o Javi, que sempre foi um pouco menos pobre que eu, decidiu comprar e me dar de presente. Ou de presente para a nossa casinha, que recentemente havia ganhado uma bela mesinha de centro. O melhor era que o vasinho vinha com uma planta de brinde, de modo que antes de colocá-lo na sacolinha, a moça que vendia pediu para eu escolher qual eu queria. Não havia muitas opções e terminei escolhendo uma suculenta meio genérica. Levei o vasinho para casa com a suculenta devidamente plantada, radiante de felicidade. 

Apesar de eu sempre ter sonhado em ter uma casa cheia de plantas, aquela era a única que eu tinha. O apartamento era meio escuro, o que tornava a sobrevivência de qualquer espécie bastante complicada. Mas cuidei muito bem da minha suculenta. Mesmo que seu lugar fosse a mesinha de centro, eu a deixava na janela alguns dias por semana para pegar um pouco mais de luz, colocava a quantidade recomendada de água e só faltava mesmo era conversar com ela.

Porém, nada disso adiantou. A plantinha começou a perder as folhinhas uma a uma até não sobrar nada. Então comprei outra e plantei no lugar dela. Em poucos meses aconteceu o mesmo. Troquei por um mini cactus. Mas, adivinhe só, ele também morreu. 

Quando nos mudamos para o bairro de Belgrano, para um apartamento mais iluminado, pensei que os meus problemas seriam finalmente solucionados. Comprei outra suculenta para o vasinho de cervo e, com ela, muitas outras plantas. O cervo-vaso já não estava mais sozinho. Para a minha surpresa, todas elas estavam conseguindo sobreviver sem maiores complicações, exceto pela suculenta do vaso de cervo. Fui trocando de espécies, graptoveria, echeveria, crassula e vai saber que outro nome estranho, e nada funcionava. O cervo continuava matando todas as plantas que viviam nele.

Mesmo depois da terceira mudança, onde uma janela redonda fazia com que o maldito cervo recebesse sol direto durante boa parte da manhã, as plantas continuavam morrendo. Até que este ano tomei uma decisão drástica. Eu compraria a planta definitiva. Depois de seis anos e aproximadamente 15 plantas mortas, aquela teria que ser a última. A derradeira moradora do cervo.

Entrei no bazar chinês decidida a solucionar a situação para sempre. Caminhei por aquele longo e largo corredor, passei pelo setor de maquiagens, pelo setor de meias, pelo setor de velas, e finalmente cheguei onde queria: o setor de plantas de plástico. 


Eu, por fim, estava livre. Estava livre das mazelas do cervo de cerâmica.



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