Talvez eu esteja brava

Ainda dói um pouco quando Sojourn toca na playlist de cinco horas e 35 minutos que escuto quatro vezes por semana na academia. Ela se chama Gym, como vocês já devem imaginar. Existe há quatro ou cinco anos e as músicas vão sendo renovadas periodicamente, embora com cada vez menos frequência, admito.

Aconteceu a mesma coisa depois do show das Haim. Mas eu fiquei brava depois de vê-las no Primavera Sound Porto, então fazia sentido que doesse toda vez que alguma música delas surgia no meu Spotify. Bom, talvez eu esteja brava com o Joji também. O que aconteceu com as Haim foi o seguinte: elas subiram ao palco 10 minutos atrasadas, algo inadmissível em um festival, porque não dá para recuperar esses 10 minutos no final, e, como se isso não fosse suficiente, deixaram de fora do setlist a música que eu mais esperava ouvir. Música esta que havia estado no setlist delas na edição barcelonesa do festival apenas alguns dias antes. E isso não tem perdão. 

Joji, por outro lado, foi pontual e não deixou nenhuma música de fora do setlist previsto durante toda a turnê. Na verdade, ele deixou de fora do repertório uma das minhas favoritas, mas eu já estava preparada para essa tragédia de todos os modos. Sabia a ordem exata das músicas e, com isso, achava que já estava suficientemente spoileada para não me decepcionar com nada. A vida, porém, é uma caixinha de surpresas.

Conheci o Joji em 2020, pouco antes do lançamento do álbum Nectar. Fiquei tão obcecada que, em poucos meses, já tinha consumido cada um dos vídeos do YouTube em que ele aparecia. Entrevistas, videoclipes, skits, vlogs e até alguns conteúdos do Filthy Frank, embora eu sinta o mais absoluto desprezo pelo personagem morto em 2017. Nos anos seguintes, já não saía nada novo relacionado a ele, então eu me contentava com os vídeos das turnês. Muitas vezes assistia aos shows completos, então já sabia mais ou menos o que vinha pela frente. Ou pelo menos achava que sabia.

Seus shows consistiam em cantar o mínimo possível e, claro, sobre pistas de suas músicas; não alcançar nenhuma nota alta, nem sequer um falsete; andar de um lado para o outro do palco e convidar personagens estranhos para fazer participações especiais. Havia até um animador que ficava em um canto do palco gritando e fazendo aqueles barulhos irritantes típicos dos programas de televisão dominical. Em resumo, eu já sabia desde o começo que, se algum dia o visse ao vivo, seria horroroso. Ainda assim, vê-lo ao vivo era uma das coisas que eu mais queria fazer na vida. Então, no fim de agosto passado, embarquei rumo a Berlim para finalmente realizar meu sonho Gen Zier.

Dito isso, quando estava lá, impaciente, segurando meu copo de cerveja quente de sete euros, esperando ele subir ao palco, achava que sabia exatamente o que Joji ia me entregar. Da turnê atual, eu só tinha visto pequenos clipes no Instagram, mas parecia mais do que suficiente.

Não era.

A primeira coisa que notei foi uma pequena mudança na ordem da segunda música, nada grave. Eu estava no mais puro estado de euforia. Seis anos depois, finalmente o via ao vivo. Joji estava a poucos metros de mim, e eu lidava com uma interessante mistura de emoções. Depois percebi que não tinha nenhum animador. Nada de gritos, nada de barulhos de corneta. Nenhum personagem estranho. As faixas pré-gravadas estavam lá e a ausência de notas altas também. Mas Joji não se mexia e não falava. Ficou o show inteiro parado no centro do palco, na mesma posição. Nem um passinho para a esquerda. Nem um passinho para a direita. O clássico momento da pistola de camisetas foi executado em um silêncio triste. Suas únicas frases durante todo o show foram “How are you doing, Berlin?”, no começo, e “There are two more songs left”, no final. And that was it.

Em poucas palavras, o que aconteceu foi que eu me senti enganada. Eu esperava uma merda, mas recebi uma merda diferente da merda que eu esperava.

Na volta para o hotel, procurando um fast food aberto para preencher um dos meus vazios, tinha em mim sentimentos desencontrados. Não podia estar decepcionada se eu não esperava muito. Eu esperava outra coisa, é verdade. Mas eu tinha visto ele. Ele estava ali, a poucos metros de mim, com o cabelo precisando urgentemente de um corte, suas novas tatuagens e sua aparente depressão.

Por isso ainda dói quando toca Sojuorn.

No hay comentarios.:

Publicar un comentario