miércoles, 30 de mayo de 2018

Vimos as pernas de Steven Wilson


Estaria ficando doente já na sexta-feira? Porque domingo disseram que ele estava doente. Será que o barulho dos foguetes e tambores de 25 de Maio incomodaram muito? Teria acordado cedo por causa disso e não estava com o melhor dos humores? Ou foi a questão da casa de show, que tinha um espaço muito pequeno pro telão e ainda tiveram que usar aquela cortina horrorosa? Porque ele reclamou disso depois da segunda música.
Estive pensando nisso nos últimos dias, como uma monja budista, cheia de empatia e compreensão ao próximo, com o coração aberto para perdoar e jamais julgar alguém porque não fez algo que eu esperava.
Depois de mais de cinco horas em pé na frente do hotel, em um pequeno (grande?) surto fanático-adolescente, Steven Wilson passou reto. Reto. A menos de meio metro de mim. Quase podia sentir seu hálito e ver seus olhos detrás dos oclinhos escuros. Entrou na van e se foi. Só restou o silêncio e os olhares de quem não podia acreditar no que tinha acabado de acontecer. Logo, as perguntas e os insultos mais ou menos respeitosos, porque, afinal de contas, o amamos mais que a nós mesmos.
Às 10h45 eu era a terceira a chegar na porta do hotel. Depois de algumas horas já éramos 10 e não passava muito disso às 16h, quando ele e a banda entraram na van com seu tour manager - que acreditava ser a própria rainha da Inglaterra - para fazer a passagem de som. Por cinco horas fomos todos amigos, compartilhamos os mesmos sentimentos, inclusive a fome. Fomos amigos desde o momento em que Steven apareceu no saguão vestindo bermuda e camiseta, fingindo amavelmente que não via um grupo de pessoas do lado de fora com discos nas mãos, e subindo rapidamente as escadas em direção ao seu quarto. Talvez a primeira pequena decepção daquela sexta-feira fresca.
Pouco tempo depois desceu o baterista Craig Blundell, que saiu pela porta mais ou menos despercebido e 10 minutos depois voltou, também discretamente. Como eu não tinha nada a perder nessa vida e ele nunca ia visualizar mesmo, mandei uma mensagem por Intsagram.

“You didn’t stop to talk with us :(“

A vida às vezes nos prega umas rasteiras, e esse foi o dia oficial das rasteiras da vida, pelo visto. Fato é que em menos de 20 segundos a mensagem tinha sido visualizada e em menos de um minuto chegou a resposta.

“I will come say hi now”

Avisei aos meus novos amigos e em uns minutos Craig estava lá com a gente, assinando discos, tirando fotos, falando sobre como desistiu de dar uma volta na cidade por causa da bagunça de 25 de Maio e explicando que não sabia se Steven ia descer pra falar com a gente, porque estava dando uma entrevista e entre 3h e 4h iam sair pra fazer a passagem de som. Depois foi a vez do tecladista Adam Holzman aparecer, tirar uma foto DA gente e logo com cada um de nós.
Em um golpe de distração, de repente podíamos ver no fundo do saguão, no bar do hotel, sentado em uma cadeira de costas para nós e de frente para o baixista Nick Beggs, Steven Wilson. Já eram três da tarde e agora tínhamos o coração cheio de esperança de que depois de almoçar ele sairia para falar com a gente. Quando se levantaram, no entanto, quem saiu foi Nick Beggs, que foi simpático como os outros dois. Apesar das nossas súplicas, Steven novamente subiu as escadas e desapareceu.
A van branca finalmente estacionou na porta do hotel e com ela um gordo manco que imaginamos ser o tour manager, já que de maneira pouco polida nos mandou sair da porta e não tentar se aproximar de Steven. Disse que se a gente tentasse tirar uma selfie ele não faria o show, o que nos causou um pouco de graça. O gordo saiu e entrou algumas vezes e sempre repetia um discurso parecido. Quando faltava cinco minutos para Steven sair do hotel, mandou até um fã de uns 70 e poucos anos levantar do sofá em que estava no saguão e ficar lá fora em pé com a gente, sem tentar se aproximar de Steven.
Como eu estava sendo adolescente anyway, resolvi resgatar a rebeldía de outrem. Me posicionei muito perto da porta da van, e quando ele estava por entrar estiquei meu braço com o disco e uma caneta. “Please Steven!”. No que o gordo me empurrou com seu braço branco e flácido dizendo “I’ve told you” e recebendo um “asshole” como resposta. A porta da van se fechou, o motor arrancou e ficamos ali, sem acreditar no que tinha acontecido. Ou no que não tinha acontecido. À noite teríamos um show de três horas pela frente e cada um foi para um lado, carregando a incredulidade no semblante.
O cansaço e a frustração tinham arrancado de mim toda a vontade de ir cedo ao show para conseguir um bom lugar, então quando chegamos a fila era quilométrica e as portas estavam por abrir. No fim, acabei conseguindo um lugar razoável e pude ver-lo outra vez de perto. A cada música meus sentimentos se desencontravam mais. Eu o odiava, e com alguma razão, mas como eu poderia não amar Steven Wilson?
Quando acordei no sábado minha vida não tinha mais muito sentido. Fazia seis meses que eu contava os dias para esse 25 de maio.

viernes, 11 de mayo de 2018

O crème de la crème de Santiago - Uma semana no Chile pt.2

Na quarta-feira de manhã voltamos a Santiago, dessa vez para ficar. Cinco dias, claro. Alugamos um apartamento pelo AirBnb no centro da cidade, e ainda tenho minhas dúvidas se ficar no centro foi a melhor decisão, mas o apartamento era ótimo e a dona já estava esperando quando chegamos. Nesse momento eu já sentia falta de me estressar com algo, mas o Chile definitivamente não estava contribuindo com isso.
Como narrar todos os nossos passos durante todos esses dias me tomaria umas 10 laudas e muito tempo da minha vida, desta vez vou me ater apenas aos melhores lugares que fomos. E em tópicos.

Cerro Santa Lucía - Localizado exatamente no centro de Santiago, a poucas quadras do nosso apartamento, o Cerro Santa Lucía pode ser uma visita interessante para quem, assim como eu, exagerou na quantidade de dias ao planejar a viagem. Se não é o caso, melhor passar reto. A subida se faz a pé por uma estrada pavimentada, mas não é nada exaustivo. Para chegar a uns pontos mais íngremes - e a uma espécie de torre que fica no topo do morro - é preciso subir umas escadas de pedra de meio duvidosas. O caminho é interessante, tem muito verde, banquinhos para sentar, quiosques e um senhor tocando Beatles com gaita de boca.


Cerro San Cristóbal 
Cerro San Cristóbal - O maior e mais importante cerro de Santiago. Subir caminhando é meio complicado, dizem (e eu acredito), mas tem gente que sobe, principalmente os próprios moradores, que o fazem unicamente para se exercitar. Nós claramente decidimos ir de Funicular, uma mescla de trem com elevador que te leva até a parte mais alta. Além da vista incrível da cidade e da cordilheira, o cerro tem uma estrutura ótima, é basicamente um parque enorme e muito bem cuidado, com muito verde, cafés, quiosques, uma capela, teleférico, banheiros e acesso a wifi grátis em algumas áreas.


Cementerio General de Santiago
Cementerio General de Santiago - Sim, eu sei que tirando o da Recoleta em Buenos Aires - e olhe lá - ninguém costuma adicionar cemitérios aos seus roteiros de viagem, mas eu e Javi gostamos. Não pela morbidez, mas porque os grandes cemitérios são quase um museu a céu aberto. O de Santiago não costuma ser muito visitado por turistas, fica numa zona meio afastada e dentro obviamente não é tão pomposo como o famoso da Recoleta (embora curiosamente esteja situado na comuna de Recoleta, em Santiago), mas a fachada e todo o entorno é bastante impressionante, além de ser muitíssimo maior.

Centro Histórico - Da pra fazer tudo numa tarde: visitar (ou só passar na frente e ficar olhando de fora, como eu fiz) o Palácio La Moneda, onde fica o presidente da república, caminhar algumas quadras até chegar à Plaza de Armas, onde está o Museo Histórico Nacional (que sinceramente só vale a pena aos domingos, quando é grátis) e a catedral metropolitana. Boa parte das ruas do centro são só para pedestres, o que é legal de dia, mas depois das 20h começa a ficar meio turvo e é difícil até achar um lugar para comer. Aliás, quase tudo fecha cedo, um grande problema para mim (que me acho a cosmopolita apesar de ter nascido em Santa Rosa).


Museo de Arte Moderno
Museo Nacional de Bellas Artes/Museo de Arte Moderno - Valem a pena por dois motivos: estão no mesmo prédio, um de costas para o outro, e ficam no barrio Lastarria, que é lindo e vale a pena perder um tempinho caminhando por ali. Ao redor do casarão dos museus está também o parque Florestal, que também é interessante para dar uma voltinha. Fora isso, não espere encontrar exposições fixas com Monets, Munchs ou Manets.

Barrio Bellavista - Bairro de estudantes, hipsters, hippies, drogaditos, jovens com dinheiro e com mais ou menos dinheiro que poderia ser erroneamente comparado ao porteño bairro de Palermo e ser chamado de “boêmio”, mas não se engane. De dia é super lindo e simpático, cheio de cafés, lojinhas, galerias de arte, restaurantes e barzinhos, com um clima tranquilinho, mas à noite, dependendo da rua, o lugar meio que se transforma na sucursal do inferno. Um bar ao lado do outro tocando uma música pior que a outra num volume proibitivo e os promoters quase te arrastando pra dentro. Melhor desviar ou passar correndo.

Siete Negronis - Como boa (e falida) bar hunter, queria muito conhecer o Siete Negronis, que está entre os melhores bares da América Latina. Os tragos são de autor e realmente são bons, mas eu poderia citar pelo menos cinco bares melhores aqui em Buenos Aires, com tragos talvez até mais baratos no menu (o mais módico ali custava U$7,50). E com melhores não me refiro só à qualidade dos drinks, mas também da ambientação e da música.

Blondie - Um dos lugares que mais gostei na cidade e talvez a melhor balada que já fui na vida. A Blondie fica no subsolo de uma galeria escura e horrorosa em uma avenida com pouco movimento à noite, mas basta descer para encontrar um novo mundo. O lugar é enorme, tem quatro pistas: a maior e principal, onde nessa noite tinha um especial Morrisey, uma menor, que tocava só rock e tinha luzes coloridas no chão - e um gato (de verdade) em um dos sofás, uma mais pequena que tocava música eletrônica, e outra do mesmo tamanho só com pop a la Britney e Beyoncé. Se uma música não agradava tanto era só sair em busca de outra, em alguma das pistas o sucesso era garantido.

Dominó - É uma rede de fast food local onde se encontram os clássicos sanduíches chilenos, que são na verdade uma espécie de hot dog com muitas (mas muitas mesmo) variações de recheios e molhos. Foi também onde tomamos pela primeira vez a principal cerveja chilena, a Cristal, que ao contrário da Skol e da Quilmes, é realmente boa. Na segunda vez que fomos comemos a clássica chorrillana, prato típico chileno que não é nada de outro mundo mas é ótimo pois leva batata frita, carne, ovo frito e outros acepipes.

Considerações Finais

Comer bem no Chile é caro. Comer mais ou menos bem também não é lá muito barato. Já disse que cinco dias em Santiago é muito? Se alguém da sua família não está na lista da Forbes, jamais pegue um táxi no Chile. Os donuts da rede Dunkin Donuts são maravilhosos, mas as bebidas têm gosto de água de vala e o atendimento é devagar quase parando. Ir ao mercado público é um teste de resistência. Além de ter apenas restaurantes, os garçons gritam, brigam entre si disputando clientes e só falta que te agarrem e te acorrentem em uma cadeira. Eu acho que não chove no Chile. Todos os parques têm irrigação e há cactus everywhere. O tal do mate com huesillos, bebida típica chilena, é tão doce que faz o nosso caldo de cana parecer amargo. É tipo tomar o suquinho da lata de pêssego em calda.

Clique aqui para ler Uma semana no Chile pt.1

viernes, 27 de abril de 2018

Um pé no Pacífico - Uma semana no Chile pt.1

Depois de quase três anos morando em Buenos Aires eu meio que já absorvi a cultura local e comecei a sentir falta de ver coisas novas. "Ah, vai se mudar para outro país", diria você.
Mas não. Daqui ninguém me tira.
Tudo o que fiz foi comprar passagens para o Chile. De ida e volta. Com um intervalo de sete dias entre a ida e a volta. E assim foram as minhas férias.
Os argentinos em geral têm pouca ou nenhuma vontade de conhecer o Chile e não vão muito com a cara dos chilenos por questões históricas e também "porque sim". Porém, como brasileira, sempre quis visitar o país. Era um plano que eu tinha desde que cheguei a Buenos Aires, em 2015, e só agora pude concretizar. Meu cônjuge argentino certamente só não reclamou mais da escolha do nosso destino porque assim ao menos poderia falar mal dos chilenos com mais propriedade.
Decidimos passar dois dias em Viña del Mar (que incluía uma visita a Valparaíso) e cinco em Santiago. Dito isso, vamos à primeira constatação: cinco dias em Santiago é um exagero, não façam isso. Tínhamos uma lista não muito extensa de lugares que queríamos ir e sinceramente podíamos ter feito tudo em três dias. Talvez quatro. A segunda constatação é a diferença gritante entre os preços do litoral e da capital. Santiago é cara até para os padrões porteños a que estou acostumada, o que significa que a Juliete do futuro viverá momentos de tensão ao pagar a fatura do cartão de crédito. Mas deixemos os problemas do mês que vem para o mês que vem.
Apesar de o remis (uma espécie de táxi executivo sem nenhum luxo) que contratamos nos ter dado oito tipos diferentes de dor de barriga no longo trajeto até o aeroporto (o motorista era brasileiro, falava o pior espanhol que ouvi na minha vida, não sabia como pegar a estrada a partir do meu bairro, não tinha créditos no celular para consultar o GPS, perdia todos os desvíos para fugir de um protesto que trancou a autopista e quase derreteu um dos pneus em uma fogueira acesa em um cruzamento), depois tudo acabou saindo bastante bem.
Chegamos a tempo em Ezeiza, o voo decolou e aterrissou no horário previsto, e ao colocar os pés em Santiago não tivemos qualquer dificuldade em chegar ao nosso primeiro destino, que era Viña del Mar. A verdade é que quando finalmente deixamos nossas coisas no quarto do hostel, no começo da tarde, estávamos um pouco desconfiados. Não estamos acostumados a que as coisas efetivamente funcionem. Mas era tudo real. Verdade verdadeira. 

Viña del Mar
Viña del Mar é relativamente pequena e nessa época do ano não há muito o que fazer por ali, menos ainda numa segunda-feira, então começamos a caminhar meio sem rumo, passamos por dois museus que estavam fechados, e finalmente chegamos à praia onde vimos o mar do Pacífico pela primeira vez. Tudo muito lindo, mas nem se compara ao litoral brasileiro. À noite jantamos num Mexicano e no dia seguinte pegamos um ônibus até Valparaíso, que não poderia ser mais diferente de Viña del Mar. A cidade é até um pouco hostil no começo, mas confesso que gostei da atmosfera decadente, colorida e desordenada do lugar. Na parte plana quase todas as ruas tem cheiro de mijo, principalmente perto do porto, mas quanto mais próximo dos morros, onde mora quase todo mundo, melhor vai ficando.

Descida do cerro em Valparaíso
Para acessar os cerros da pra pegar um elevador pago ou exercitar os glúteos nas escadas e rampas. A vista de cima vai compensar o esforço anyway. No topo do morro tem de tudo: casas caindo aos pedaços, casas enormes, casas novas, igrejas, edifícios, cafés, fortes, museus, supermercados, restaurantes,  hostels, e dependendo do cerro tem também umas feirinhas com toda a classe de souvenirs para turistas.

Porto de Valparaíso
Para almoçar, decidimos descer para a parte plana e mais afastada do porto onde fomos disputados a tapas pelos restaurantes que caçavam turistas com um desespero admirável. Nos ganhou um que cobrava um valor fixo e razoável por uma entrada (ceviche), prato principal (peixe) e sobremesa (uma gelatina horrorosa). Depois de comer, voltamos ao aconchego de Viña del Mar e fomos a lugares que não visitamos no dia anterior. Antes das seis já estávamos de volta ao hostel, esperando ansiosamente para finalmente ir a Santiago. O que ocorreria só no dia seguinte e é história para outro texto.

Clique para ler a parte 2.

jueves, 22 de marzo de 2018

Sobre amar música e odiar shows


Quando ouvi o Steven Wilson dizer em uma entrevista que não gosta de ir a shows, senti seu abraço quentinho. Eu tento colocar a culpa em tudo para não ver ao vivo uma banda que quero muito ver ao vivo: no público, que é um saco (e é um saco ainda maior na Argentina), no preço, na data, no lugar, no clima. Perdi Arcade Fire porque era a única banda que eu queria ver em um festival caríssimo, perdi Phoenix porque foi no fim de semana que meus pais estavam aqui, perdi Queens of the Stone Age por medo de ser pisoteada até a morte. Em geral não é algo que fico pensando muito. Não fui e pronto.
Acho todo o processo de ir a shows uma reverenda tortura. Desde o momento em que abrem as vendas e você precisa ser muito rápido, porque os ingressos podem terminar em poucas horas. Você fica ali aflito na “fila virtual” (a primeira de tantas), e pode ou não ter êxito em sua compra. Se consegue, depois tem que ir buscar a entrada, dependendo do lugar e do dia, ali se encontra a segunda fila.
Mas nem se compara com a fila para entrar no show, seis meses depois. E a partir daí, bom… você só vai parar de sofrer dali a uns dois dias. Se você conseguir um lugar bem na frente porque chegou cedo, vai perdê-lo em breve porque pessoas que chegaram 10 minutos antes de começar vão roubá-lo de você. Ou vão te chutar e te empurrar e despejar cerveja na sua cabeça até sua paciência esgotar, e aí você vai para trás, onde é mais tranquilo, ainda que não dê para ver nada. Ali você apenas escuta o show que você pagou 20% do seu salário para ver.
E as pessoas vão passando “com licença, com licença” com dois copos de Quilmes nas mãos, porque é mais barato comprar logo dois. E como elas são idiotas de qualquer modo, não se importam em tomar o segundo copo já quente e pela metade (porque a outra parte foi derramada enquanto tentavam caminhar no meio do público).
Como não fui a muitos shows, nem na Argentina e nem no Brasil, aprendi com as pessoas daqui que “é assim mesmo”. Show grande é assim mesmo. Você vai para sofrer e é normal não conseguir ver a banda no palco por mais de 15 minutos (no total). “É assim mesmo”, dizem. Te empurram de uma extremidade a outra, te chutam, te molham com cerveja, roubam seu celular, puxam sua roupa e seu cabelo. No outro dia você tem hematomas, dores musculares e uma camiseta que agora só serve para dormir.
Até que tem sentido amar música e odiar shows. 

PS. Este texto foi escrito enquanto me recupero das dores do show do LCD Soundsystem, que tirando a parte ruim, foi maravilhoso.
PS 2. É tudo muito irônico, eu sei, mas o próximo show que irei é justamente do Steven Wilson.

jueves, 15 de marzo de 2018

O dia em que não comi shawarma

Saí de casa com 160 pesos e o Javi com 250. Era só para comer um shawarma e tomar algo depois da leitura de contos de Hernán Casciari no La Tangente. Estamos vivendo em regime de austeridade por motivos de férias e do aniversário pitoresco do Javi, portanto só fomos porque ganhamos as entradas de presente e nem a pau comeríamos ali.
Não lembro se já tinha ido antes a uma leitura de contos, provavelmente não, porque “leitura de contos” soa como algo que me vai dar muito sono e vontade de me enforcar. Mas eu tinha escutado umas leituras do Casciari no Youtube e elas definitivamente não me provocaram nenhum dos dois. Sem falar que todos os nossos amigos diziam que ele é um gênio, foi daí inclusive que surgiram as entradas.
Enquanto a gente tava na fila esperando o lugar abrir as portas, eu ficava olhando para a tendinha de shawarma do outro lado da rua, salivando e desejando que aquilo acabasse rápido pra eu poder me esbaldar naquela maravilha da cocina callejera. Mas quando finalmente entramos e o gordo apareceu no palco com seus contos, meio que esqueci a fome e a vontade de comer.
Foi triste quando terminou, se não fosse a cadeira desconfortável eu juro que ficaria ali mais uma hora ou duas. Ele então finalizou dizendo que tinha trazido uns livros pra quem quisesse comprar e que em uns minutos estaria ali no fundo assinando e tirando fotos. Juntamos o dinheiro do shawarma e entre dois compramos o mais recente. Casciari assinou (dedicando 53% do livro a mim), tiramos uma foto horrorosa e fomos pra casa comer sanduíche, mais felizes que nunca debaixo de uma chuva torrencial.

jueves, 11 de enero de 2018

Ventinho fresco e sanduíche de alface

Eu não costumo falar muito das experiências desastrosas que viví em Buenos Aires, mas como faz tempo que não acontece nada bizarro comigo, comecei a lembrar de algumas coisas que passei e agora elas me parecem muito mais engraçadas que indignantes. Essas duas foram as mais emblemáticas.

Restaurante, Lai Lai, Barrio Chino. Foi nossa terceira opção, numa noite de terça-feira, véspera de feriado, depois de ver que a primeira estava fechada e a segunda, lotada. Entramos e percebemos que a única mesa disponível estava encostada em um freezer horizontal branco. “Não vão ficar abrindo o freezer toda hora”, pensamos, muito ingênuos, e finalmente sentamos ali. A garçonete veio anotar os pedidos, e foi quando o incômodo começou, ainda num nível bastante leve.
“Para mi un chow mein de carne”, disse.
“De qué?” perguntou a moça.
“De carne” disse novamente.
“Cómo?” perguntou outra vez com cara de desentendida.
“DE CARNE!” repeti arregalando os olhos para o Javi, incrédula.
Os argentinos tem isso de às vezes fingir que não entendem o que você fala para fazer você se sentir inferior, mas ter que dizer três vezes uma palavra que tem exatamente a mesma pronúncia em português e espanhol, achei um pouco too much. Mas tudo bem. Pedido finalmente entendido, Javi disse o seu e ela se foi.
Nesse momento abriram o freezer pela primeira das quatro ou cinco vezes ao longo da noite. Era inverno, e cada vez que abriam aquela maldição cheia de massa congelada saía uma fumaça fria com um cheiro estranho diretamente em nossas caras.
Depois de muita espera pelos pedidos, a mesma garçonete aparece com um prato, o meu, dizendo que logo chegava o outro. Não comecei a comer porque, por mais que para o pessoal do Lai Lai aparentemente seja normal uma pessoa comer enquanto outra apenas olha, eu acho isso um pouco incômodo. Esperamos, esperamos mais um pouco, perguntamos pelo prato novamente, esperamos mais. Até que ela apareceu com o prato do Javi. O meu, é claro, já tinha atingido a temperatura dos produtos do freezer e tive que pedir para esquentarem. Obviamente comi chow mein cuspido pela mesera, que em nenhum momento se desculpou. Terminamos e saímos sem deixar gorjeta.

Café do museu Eduardo Sivori, um sábado qualquer. Javi estava com uma vontade incontrolável de comer brownie com sorvete, então aproveitamos para ir ao café do museu Eduardo Sivori, que ele dizia que era lindo e queria me levar fazia tempo. Como era um pouco passado do meio-dia e ainda não havíamos almoçado, me pareceu razoável comer algo salgado primeiro e depois o brownie. Fizemos isso. Não lembro o que Javi pediu, mas eu pedi um sanduíche de frango - cujo preço era muito acima do mercado. Primeiro veio o suco de laranja, que mais parecia uma mostra de um litro de urina de tão quente que estava. Pedimos gelo e nos deram uns pedaços enormes que não entravam no copo. Em seguida chegou meu sanduíche e a comida do Javi. Como não gosto de tomate, puxei duas rodelas disfarçadamente para fora do pão, e quando finalmente mordi percebi algo estranho. Resolvi abrir o sanduíche para dar uma olhada e... eu estava comendo pão com duas folhas de alface. Exatamente, não havia frango no sanduíche de frango. Chamei a garçonete, expliquei que não tinha frango no sanduíche de frango e ela, sem nem um pouquinho de vergonha, disse: “ah, bem que eu vi que tava meio magrinho”. Levou de volta o prato com os pães mordidos e os tomates deixados de lado e voltou dois minutos depois com o mesmo pão mordido, os tomates novamente dentro deles, e uns pedaços de frango jogados meio de qualquer jeito. “Pronto, agora sim”, disse. E se foi, sem se desculpar, obviamente. Terminei de comer o sanduíche com sangue nos olhos e fomos embora sem o brownie. E a garçonete sem gorjeta.

jueves, 28 de diciembre de 2017

Parece que fracassei

Tava aqui lendo minha não-retrospectiva de 2016, que realmente não era um retrospecto de nada, mas tinha um final muito interessante – em um mau sentido. Terminava assim:

“Para o próximo ano, no entanto, não espero muito. Espero ganhar mais dinheiro para começar a viver em vez de apenas sobreviver. Espero também ver Two Door Cinema Club no side show do Lollapalooza. Espero, espero mesmo, porque custa $900. E também queria poder viajar para outro lugar que não seja o Brasil. E fazer a tatuagem que to planejando há um ano. Uma mesa nova para a sala? Talvez dois criado-mudos (criados-mudo? criados-mudos?) para o quarto.”

Sabe quantos desses objetivos eu consegui atingir? DOIS. Os mais sem-graça. Adivinha.
Sim, isso mesmo.
A mesa e os criado-mudos (criados-mudo? criados-mudos?).
Eu não estou ganhando mais dinheiro, por tanto não fui ao show do Two Door Cinema Club, inclusive no mesmo dia meus rins estavam me matando, fui no hospital e descobri que tinha um infecção urinária. O universo é muito engraçado mesmo, ele achou que eu ia pensar “ah, menos mal que eu não tive dinheiro pra comprar o ingresso”, quando na verdade eu só conseguia pensar “puta que pariu, minha vida é uma merda mesmo”.
Eu não viajei pra nenhum lugar que não fosse o Brasil. E não, mais uma vez não fiz a tatuagem.
Há outra passagem muito interessante do texto do ano passado:

“Sim, porque nas últimas semanas eu estava aprendendo a andar de skate (...)”.

Acredito que meus três leitores saibam o que aconteceu um mês depois de eu digitar essa frase. É, eu caí tentando andar nesse negócio, quebrei o ombro e nunca mais voltei a colocar meus pés em uma tábua com rodas.
Para piorar, há algumas semanas fiz 28 anos, o que me desgraçou a cabeça. Uns dias antes comecei a ter pensamentos estranhos antes de dormir que fizeram eu me sentir uma fracassada. Logo comecei a entender a turma dos 27. Não tinha nenhuma vontade de comemorar, mas acabei comemorando mesmo assim com um bolo de unicórnio, sem velinhas. Até ruga encontrei na minha cara um dia depois.
Mas algumas coisas boas aconteceram. Deixa eu pensar. Algo bom deve ter acontecido. Eu fiz um curso de redação publicitária de quatro meses. Não sei se isso é bom, porque fiquei ainda mais pobre nesse quadrimestre e até agora não me ajudou em muita coisa. Mas era algo que eu queria muito fazer, de qualquer forma. Também meio que terminamos de mobiliar nosso apartamento (alugado), compramos um toca-discos decente, caixas de som decentes e muitos discos – o Javi, na verdade.
Para o próximo ano, no entanto, espero mais. Novamente espero ganhar mais dinheiro para começar a viver em vez de apenas sobreviver e também espero viajar a outro lugar que não seja o Brasil. Espero ir ao show do LCD Soundsystem (eu já tenho o ingresso, o que quer dizer que está muito próximo da realidade) e do Steven Wilson. E também espero fazer essa maldita tatuagem.